SOBERANIA CIENTÍFICA
AFONSO DE ALBUQUERQUE<br /> - Ligando os Pontos: Assimetria na Pesquisa Global em Comunicação e seu Impacto Político<br />
O projeto tem como objetivo principal aproximar duas agendas de pesquisa que têm se desenvolvido de maneira isolada: 1) a pesquisa sobre a assimetria existente no cenário internacional da pesquisa em Comunicação; 2) a capacidade de agentes situados nos países centrais (Estados Unidos acima de todos) de impor agendas políticas aos países periféricos. Inicialmente, o projeto pretende explorar dois exemplos concretos de como essas duas dimensões e relacionam: o papel desempenhado por organizações sediadas nos Estados Unidos – algumas delas de cunho acadêmico – na promoção da agenda do jornalismo investigativo e das fake news no Brasil. O projeto dialoga com os eixos 1 e 2 do INCT-DSI.
Financiamento: CNPq
2. THAIANE OLIVEIRA Mercadores da dúvida ou salvaguardas da verdade: o papel das instituições intersticiais na implementação de agendas sobre a desinformação científica no debate público
A desinformação científica se tornou uma grande preocupação mundial, uma agenda debatida em diferentes esferas, desde acadêmico, ao político-legislativo, na pauta midiática e no debate nas mídias sociais. Apresentada mediante a uma urgência de ser combatida, tais agendas têm estado presentes nos circuitos epistêmicos, responsáveis por produzir conhecimento ou disseminar informação que apoiam a tomada de decisão política. Sob esta agenda de urgência, vemos fundações filantrópicas, institutos financeiros e thinks tanks, chamadas de instituições intersticiais público-privadas, de diferentes correntes do pensamento liberal, pautando o debate sobre a desinformação, não apenas nas discussões sobre a regulação da informação, mas também na defesa de liberdades de opinião e na instauração de dúvidas sobre temas relacionados à ciência, saúde e meio ambiente. Presente no fomento nos circuitos acadêmicos, em comissões mistas parlamentares na apresentação de projetos de lei, validadas na mídia como referência aos debates sobre a informação científica, também atuam na esfera pública digital, mobilizando discursos a partir de conjuntos de sistemas de crença políticos, consolidando um ecossistema epistêmico complexo no debate público. Apesar de uma literatura significativa sobre a atuação destas instituições intersticiais nos Estados Unidos e Europa, poucas são as pesquisas voltadas para a América Latina. Diante disso, a proposta do projeto consiste na realização de estudos multimétodos para entender o papel destas instituições no debate público através de um mapeamento, análise de atores, discursos e enquadramentos a partir de circuitos epistêmicos (acadêmico, político-legislativo, midiático e público-digital). Espera-se que esta pesquisa, que se insere no eixo 1 do INCT-DSI, possa contribuir para políticas públicas mais soberanas, voltadas para a regulação da informação, não pautadas por agendas transnacionais, apoiando o debate público sobre as disputas informacionais relacionadas à ciência, saúde e meio ambiente no Brasil e América Latina.
Financiamento: CNPq
3. WAGNER LARA MACHADO Desenho de uma intervenção comunitária para combate à desinformação na saúde e aumento da cobertura vacinal
O presente projeto de pesquisa tem por objetivo desenhar uma intervenção comunitária para combate à desinformação e aumento da cobertura vacinal em comunidades brasileiras. Para tanto, prevê etapas sequenciais de desenvolvimento e validação da intervenção, desde os procedimentos teóricos aos empíricos. A cobertura vacinal no Brasil e no Mundo vem caindo significativamente. Dentre os muitos fatores que afetam esta queda, destaca-se o papel da desinformação em saúde. A vacinação tem sido alvo de teorias conspiracionistas e desinformação, tanto sobre os seus objetivos (e.g. forma de controle de natalidade/fertilidade) quanto seus efeitos (e.g. causar doenças do desenvolvimento, como as condições do espectro do autismo). O estudo tem como finalidade desenvolver uma tecnologia social de intervenção comunitária que possa tanto gerar estratégias e qualificar lideranças comunitárias a inocular informações confiáveis (prebunking), quanto reestruturar crenças disfuncionais sobre as vacinas e a vacinação (debunking) dentre os membros das comunidades. O projeto se insere no eixo 1 do INCT-DSI, na medida que colabora para a geração e reestruturação de crenças alinhadas com as evidências científicas e validadas por pares em comunidades brasileiras com o objetivo de aumentar a cobertura vacinal.
4. JOSÉ CLÁUDIO CASTANHEIRA Práticas audiovisuais e relações de tecnocoloniais entre Norte e Sul Global
Este projeto de pesquisa pretende explorar e analisar o impacto dos desenvolvimentos recentes de tecnologias de produção midiática contemporânea, especificamente tecnologias audiovisuais em países do Sul Global, que geralmente buscam adotar os mesmos protocolos técnicos daqueles países onde essas tecnologias são desenvolvidas. O momento atual, denominado por alguns autores de Neoglobalização ou Pós-Globalização, torna ainda mais evidente a importância de se repensar os ambientes tecnológicos diante de uma reavaliação do papel dos Estados-nação e dos modelos tecnológicos hegemônicos. O capitalismo tardio, em sua dimensão transnacional, depende da existência de uma estrutura de produção e circulação de produtos que transcenda os aspectos locais da cultura e que favoreça a criação e o uso de ferramentas universais para diferentes sociedades. A universalidade dessas soluções, porém, atende mais às necessidades das grandes corporações do que das pessoas que as utilizam. O acesso às tecnologias sempre foi uma questão fundamental para o desenvolvimento, principalmente para os países do chamado Sul Global. Como os protocolos de produção estão intimamente ligados aos modelos de circulação, podemos perceber claramente as desigualdades geradas entre países centrais e periféricos. Países centrais têm maior capacidade de produção e desenvolvimento tecnológico em um cenário de globalização. Os países da América Latina são um bom exemplo desse fenômeno, não apenas em termos tecnológicos e estéticos, mas também em termos de identidades culturais. A hipótese principal deste projeto é que o discurso tecnológico contemporâneo tem um forte caráter colonialista. Tal colonialidade é uma continuação do colonialismo histórico e atua por meio do controle, modificação e apagamento dos mais diversos saberes locais. Esse epistemicídio torna os países periféricos dependentes do conhecimento produzido fora de suas fronteiras e os impede de formular seus próprios cenários ou soluções.
Financiamento: CNPq MCTI/CNPq nº 14/2023 – Apoio a Projetos Internacionais de Pesquisa Científica, Tecnológica e de Inovação.
5. MICHELY VOGEL A incorporação científica de temas emergentes: da atenção social ao reconhecimento científico
Temas emergentes referem-se a tópicos, problemas ou áreas de interesse que começam a ganhar destaque e atenção, muitas vezes devido a mudanças sociais, avanços tecnológicos, desenvolvimentos científicos ou outras influências. Tais temas costumam estrear no ambiente acadêmico a partir da literatura cinzenta (Teses, Dissertações, TCC, trabalhos de eventos, etc), tornando esta uma valiosa fonte para sua identificação. Considerando o cenário descrito, os objetivos são: Identificar temas emergentes, especialmente nas Ciências Sociais e Humanidades; Desenvolver uma metodologia de mapeamento bibliométrico adaptável para diferentes áreas e diferentes fontes; Investigar fatores que contribuem para a incorporação de temas sociais em diversas disciplinas; discutir o papel da literatura cinzenta no desenvolvimento científico. Trata-se de pesquisa bibliográfica, apoiada em revisão sistemática de literatura e cientometria, a fim de identificar e mapear temas emergentes especialmente voltados às Ciências Sociais e Humanidades, que raramente são objeto de estudos métricos. Espera-se por fim compreender como os temas “sociais” se tornam científicos, confirmando, refutando ou atualizando as propostas de Price e Meadows de que a cientifização de um tema se dá para formação de associações de pesquisa e criação de periódicos especializados na temática, bem como compreender o papel da literatura cinzenta e quão cinza ela se mantém diante das inovações tecnológicas.
6. MICHELY VOGEL - Comunicação científica e divulgação científica: questão de estrutura e linguagem
A comunicação científica é a área da Ciência da Informação que se preocupa com as características e comportamentos de autores, desenvolvimento de temáticas e uso de tipologias para compartilhamento de pesquisas. Em seus canais formais (periódicos, livros, teses e dissertações) busca credibilidade por meio da validação por pares e sustenta-se pelo rigor estrutural. É a comunicação entre pares, entre semelhantes. A divulgação científica por sua vez busca, por meio de uma linguagem livre de jargões e terminologias fechadas, atingir diversos públicos além do universitário, como gestores públicos, imprensa e especialmente a sociedade. É uma satisfação social aos investimentos em pesquisas, e a chance desta se tornarem conhecidas e sobretudo defendidas por não especialistas, por leigos no assunto. Neste projeto, parte-se da hipótese de que enquanto comunicação científica seria estrutura, focalizando em aspectos formais, a divulgação científica seria linguagem, focalizando sua tradução aos não pares. Objetiva-se, a partir do referencial teórico da Ciência da Informação, verificar como a comunidade científica enxerga esses dois conceitos, explorando as consonâncias e divergências entre eles. O caminho metodológico proposto inicia-se com uma revisão sistemática de literatura apoiada em ferramentas (como START ou PARSIFAL) para levantamento dos conceitos. Na sequência, propõe a elaboração de indicadores bibliométricos de produção científica poderão ser levantados, seguida por meio da análise de conteúdo para estudo dos resultados. As bases de dados escolhidas, a priori, serão OasisBR, BRAPCI e SCIELO. Espera-se por fim conseguir delimitar tais conceitos, ao menos do ponto de vista da Ciência da Informação, corroborando ou refutando a hipótese colocada.